No Dia Internacional da Mulher, vale acender um holofote sobre um problema de saúde pública que costuma andar no “modo silencioso”: a dor crônica. Ela não aparece em exames como um “X” bem marcado, não usa gesso, não sangra — mas rouba energia, autonomia e presença. E, com uma frequência incômoda, rouba isso mais das mulheres.
Uma curiosidade que deveria constranger qualquer sistema de saúde: estimativas globais apontam que cerca de 1 em cada 5 adultos convive com dor crônica — e que 10% entram nesse grupo a cada ano.
Isso não é “uma queixa”. É uma epidemia de fundo, do tipo que empurra gente produtiva para o esgotamento sem fazer barulho.
Quando a lente fecha no público feminino, a diferença fica ainda mais nítida. Fibromialgia é o exemplo clássico: em amostras clínicas, mais de 80–90% dos diagnósticos aparecem em mulheres — embora estudos mostrem que parte dessa diferença pode refletir também viés de encaminhamento e subdiagnóstico em homens.
E não é só fibromialgia. Enxaqueca é outra “assinatura” do problema: depois da puberdade, ela se torna 3 a 4 vezes mais frequente em mulheres.
A própria OMS chama atenção para a escala: distúrbios de cefaleia atingiram cerca de 3,1 bilhões de pessoas em 2021 e são mais comuns no sexo feminino.
Mas por que isso acontece?
Aqui entra a parte que quase nunca cabe numa manchete, mas explica muito. Dor crônica não é apenas “dor que demora”. Em muitos casos, é um sistema nervoso que passa a funcionar como um alarme sensível demais: dispara com facilidade, mantém o corpo em estado de alerta, altera sono, humor, tolerância ao estresse e até a forma como o cérebro “filtra” sinais do corpo. E, no caso das mulheres, esse cenário sofre influência de três camadas que se somam:
1. Biologia e hormônios, com variações ao longo do ciclo, gestação, puerpério e transição menopausal, afetando limiar de dor e processos inflamatórios.
2. Imunologia e sensibilização central, com maior propensão a certas síndromes dolorosas em mulheres.
3. Psicossocial: dupla ou tripla jornada, carga mental, sono fragmentado, pouco tempo de recuperação — e o corpo cobra isso com juros.
Para mim, como especialista em dor, o ponto mais grave é que o impacto raramente fica restrito ao sintoma.
“A dor crônica na mulher não é apenas um desconforto físico. Ela mexe com produtividade, convívio social e autoestima. Muitas pacientes param de participar de eventos familiares, reduzem atividades profissionais e vão se isolando — não por falta de vontade, mas por falta de combustível.”
E existe um detalhe que irrita pela previsibilidade: o subdiagnóstico e a desvalorização da queixa. Diversas análises discutem como vieses de gênero podem levar a interpretações apressadas (“é emocional”, “é estresse”, “é exagero”), atrasando o tratamento e prolongando sofrimento.
No Dia da Mulher, o recado é simples e sério: dor persistente não deve virar identidade, nem rotina.
Cuidar da dor feminina é cuidar de algo que sustenta tudo o resto: presença, dignidade, autonomia, família e vida social. E isso não é um “mimo” do sistema — é uma dívida antiga.

Serviço
Clínica IBDOR
709 Sul – Centro Médico Julio Adnet
Fone: (61) 98408-4014





